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A “Zingara”

26/02/2009

Numa dessas manhas, a caminho do trabalho, peguei o metro da linha vermelha (Milao tem tres linhas de metro, Vermelha, Amarela e Verde) e segui minha jornada de quase duas horas para chegar ao destino.

 

Imerso na leitura do livro Anjos e Demonios de Dan Brown, que chegarà nos cinemas em Maio, um perfume sorrateiramente invadiu o vagao e me resgatou da concentraçao.  Peguei o marcador e fechei o livro na pagina 93, com o intuito de observar de onde vinha aquele perfume, que meu cèrebro identificou como “aroma de Lavanda”.

 

Afastada dois metros à minha esquerda, de pè, encostada na barra de apoio, encontrei a fonte de onde exalava o perfume. Uma cigana, ou “Zingara” como os italianos chamam por aqui. Deveria ser alta aproximadamente 1,60 m, calçava um tamanco branco, usava uma meia de listras coloridas, uma saia comprida cor de vinho e bordada com fios que brilhavam, um casaco escuro, que nao combinava com nada e seus cabelos negros eram cobertos com um lenço multicolorido com motivos floridos. Suas maos, tinham dedos cobertos de anèis e os pulsos, com correntes repletas de penduricalhos. Deve estar nos seus 40 anos, pelo menos aparentava. Semblante de gente sofrida.

 

Foi a segunda vez que encontro esta mesma cigana. A diferença esta no fato de que da primeira vez que a encontrei, tive mais medo do que coragem de ficar olhando. Explico. Neste dia, ela discutia com um homem, que pelo que entendi era seu marido e pela forma como ele se portava, submisso, cabeça baixa, pensei… Aprontou alguma! A impressao, era que ela achava que estava sozinha naquele vagao, pois xingava em alto e bom som, com a boca espumando de raiva, os olhos parecendo queimar e apontando para ele com os dedos da mao direita, recitando palavras indecifraveis como se estivesse almaldiçoando o “pobre coitado”. Um espetaculo aterrorizante. Pensei comigo… “que essa praga que ela rogou nao pegue em mim, “pelamordeDeus” e repetia “Jesus que me abrace”, como dizia minha querida amiga Cristiane no Brasil.

 

Mas desta vez ela estava serena, calma, parecia uma outra pessoa. Num certo momento, ela pegou umas moedas e começou a chacoalhà-las nas maos, olhando para as pessoas no vagao, que como eu da outra vez, desviavam o olhar. Pensei comigo, que povinho mais desgraçado esses ciganos, no sentido literal. Eles carregam o peso de uma defamaçao milenar. Lembro da minha infancia, a mà fama que tinham e ainda tem. Minha avò dizia sempre…” se comporte, senao peço para um cigano te levar embora”. E assim a gente cresce os considerando pessoas que roubam, sequestram criancinhas, que sao trapasseiros e por ai vai. Nosso velho prè-julgamento como se nossa raça fosse a mais correta do mundo.

 

Nas minhas pesquisas, descobri que os ciganos ditos “originais”, sao oriundos de uma regiao entre a India e o Paquistao e o seu exodo, teve inico ha mais de 1000 anos, quando fugiam de desvastaçoes e invasoes por parte do reinado de Mahmud Ghazni, um dos mais importantes afegaos da dinastia de “Ghaznavide”. Como todos os seres humanos, buscavam a salvaçao de suas vidas e uma vida melhor, e o deslocamento em massa e para todos os lugares e a caracteristica de nao se fixarem, caracterizou sua cultura como nomade. Na sua grande maioria, sao cristianos, divididos entre catòlicos e ortodoxos e pouquissimos mulçumanos. Aqui na europa, os ciganos de origem indiana sao divididos em quatro grupos etnicos e aqui na italia, por exemplo, o ultimo levantamento registrou a presença de mais de 200.000 deles.

 

Mas enfim, como nessa vida nada è para sempre, algumas “fermatas” à frente, o vagao parou, a cigana desceu, outras dezenas de pessoas subiram e eu abri o meu livro na pagina 93 para continuar a minha leitura. A presença fisica daquela figura “mitologica” nao existia mais, no entanto, o perfume de lavanda que ainda restava no ar, dava a impressao que ela ainda estava ali, chacoalhando moedas, mexendo nos cabelos ou arrumando o lenço na cabeça. Pensei com meus botoes: “Tenho que registrar isso!”

 

Ci vediamo,

 

Jean Ponchiroli

 

 

 

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2 Comentários leave one →
  1. Ana permalink
    02/03/2009 3:13

    Esse blog ainda vai render um bom livro.
    Já tenho uma sugestão para o título: “xx anos em Milão – observações de um bom brasileiro” – kkk

    Bjs mil

  2. 07/10/2010 8:46

    De todos os textos seus que li até agora esse foi o que mais me tocou. Incrível. Eu conseguira entrar na sua realidade e até quase sentir o cheiro da Lavanta. Apreciável e recomendável. Ável.

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